quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Santana Castilho contra a Educação estupidificante


Santana Castilho contra a educação estupidificante. Ainda bem que existe um "motor" neste país.



O novo estatuto da carreira docente é a mais recente frente de batalha entre governo, professores e sindicatos. O que lhe parece esta questão?


É um documento totalmente centralizador da gestão dos docentes, que exibe uma ignorância técnica alarmante, por parte dos seus proponentes. Não se pode pensar combater o insucesso escolar com intervenções administrativas na gestão das carreiras dos docentes. Algumas disposições regulamentadoras são um misto de pulsões estalinistas, atropelo à lei geral e insensibilidade ao ridículo. Exemplos? Ser-se mãe vai significar penalização. Casar, apanágio de relapsos. E morte de pai ou mãe deve ser acordada ora com os santos ora com o diabo, para que não coincida com ano de doença. É o que resulta do cruzamento da lei geral quanto a faltas por maternidade, nojo, casamento ou doença e as particularidades delirantes deste estatuto.

E a possibilidade dos pais avaliarem os professores?

É uma iniciativa populista, na senda de outras do mesmo teor. Tudo o que o governo tem feito visa agradar aos pais, colocá-los contra os professores e aliviar o esforço dos alunos. Assenta num populismo e numa demagogia insuportáveis. As reformas selvagens que têm vindo a público são música para pais ocupados e alunos mandriões e indisciplinados. Não é com elas que se acrescentará conhecimento e competência aos jovens, porque têm sido pensadas com outras motivações. Mas o objectivo mais evidente desta proposta de alteração de estatuto é o de economizar dinheiro. Por via dela é instituído um verdadeiro tecto salarial, a que ficará sujeita a maioria da classe. E, do mesmo passo, reforça-se o modelo altamente centralizado de gestão do maior grupo profissional do país. Na Coreia do Norte não se faria melhor.

Então, o novo estatuto só vem piorar ?


O documento é um verdadeiro pacto entre as piores emanações das chamadas Ciências da Educação e as hediondas fixações populistas e economicistas de um PS que travestiu o socialismo numa versão selvagem. Se vier a ser aprovado, este estatuto será a magna carta de uma corrente doutrinária que, no Estado, se apossou da educação dos nossos filhos e a linguagem satírica apelidou de "eduquês". Note-se bem o que pretendo exprimir: uma coisa é o contributo sério, fundamentado, que as Ciências da Educação têm dado à reflexão pedagógica e à produção de conhecimento e outra coisa são as diletâncias de aventureiros que, a coberto dessa epígrafe, têm escravizado os professores do terreno, idiotizado a juventude e ridicularizado a Escola.

Os sindicatos queixam-se da "perspectiva economicista" do Ministério da Educação. Será que o dinheiro não conta na educação?

Claro que o dinheiro conta e muito na educação. Mas a estafada invocação de que Portugal é dos países que mais dinheiro consagra à Educação, não passa de tirada de habilidosos. É que essa afirmação resulta sustentável por referência percentual ao produto interno bruto. Mas já o caso muda de figura se repararmos que temos um produto baixíssimo e 7% de 100 são 7, enquanto 5% de 300 são 15.
A ministra da Educação, por exemplo, classificou de excessivo o peso dos salários no orçamento do ministério. Esse excesso resulta, segundo números da OCDE recentemente divulgados, de um peso de 93% dos salários relativamente à totalidade da massa monetária em apreço, quando a média respectiva dos outros países se fica pelos 75%. Esta relação tanto pode ser alterada pela diminuição do número de assalariados como pelo aumento do orçamento, mantendo o valor global dos salários. Ou, ainda, se se quiser, pela diminuição do valor dos salários, mantendo inalterável o orçamento e o número dos contratados.
O que quero realçar é que nunca se usou tanto a linguagem dos números para documentar opiniões e sustentar teorias, procurando com isso fazer passar a ideia de que as argumentações são sólidas. O que referi é uma demonstração clara da possível manipulação dos números. Mas pior que isso é a pura ignorância maliciosa da sua expressão, para mentir.
.....
Tive vergonha de mim mesma nesta recepção ao professor. Quando finalmente estava aberto o debate sobre o estado da educação em Portugal eu deixei-me absorver naquela estúpida ignorância e comodismo da plateia, de colegas meus. Calei-me. E quem cala consente. Não representei a classe dos explorados a recibos verdes, os tapa-buracos, os que são empurrados da Câmara Municipal para o Agrupamento; ninguém assume responsabilidades; somos tarefeiros; somos...os trabalhadores fantasmas! Calei-me. Fui fraca. Aquele silêncio de debate frustrado cansou-me...e eu deixei-me ficar. Shame on me...

Sem comentários: